Volta ao mundo no veleiro TRITON
Outubro até Dezembro - Trinidad - Venezuela - Curação - Cuba
Outubro 2001
Voltei para Trinidad em meados de Outubro, agora sozinho. O barco esta muito sujo por fora, mas por dentro está sem mofo e pouco sujo. As baterias que ficaram ligadas nos 2 panéis solares pequenos de 18 Watt cada estão cheias. Pedi à Peakes Marina para mudar de lugar para poder trabalhar melhor no barco. Mudei para um lugar junto ao Azular frente para o mar e com um bom espaço em volta do barco. Agora posso trabalhar: instalei o watermaker (faz da água do mar 5 litros de água doce por hora), instalei o fish-finder (nova sonda de profundidade), aumentei a linha de água uns 5 cm com epóxi e cobre em pó, pintei o fundo com tinta venenosa, consertei vários arranhões na fibra e mais mil outras coisas. Todo sábado temos um churrasco com a turma brasileira, neste momento composto de Azular, Eduardo de Vida Viva, Bora, Big Blue, San Miguel e um barco novo, o Paloco com Marcelo e Marina. É sempre bem animado.
1 - 13 Novembro 2001
O barco voltou para a água no dia 2 de Novembro e estou ancorado na frente da marina Peakes. Preciso esperar para o meu passaporte novo e ficou pronto no dia 9. Pretendo zarpar para Isla Los Testigos na Venezuela no dia 14 de Novembro. Ainda faltam algumas coisas para serem feitas no barco. Uma pendência sem solução e a revisão anual da balsa salva-vidas. Existem 2 companhias em Trinidad porem marquei várias vezes para fazer a revisão e eles nunca aparecem. Uma vergonha, reclamei com a YSATT (Yachting and Sailing Association of Trinidad and Tobago) e não tem jeito. Todo mundo reclama da qualidade dos serviços em Trinidad. Vou fazer a revisão na Venezuela ou Panamá. Hoje no dia 13 dei saída na emigração e alfândega para zarpar amanhã. À noite passei muito mal com forte dor no estômago e quase desmaiei e depois tive diarréia. Acho que por causa de veneno. Tem muitas formigas no barco e hoje borrifei o barco com um spray mata-insetos. Esqueci depois de lavar os pratos !!!! Felizmente a crise passou em meia hora.
14 Novembro 2001
Parti ás 10:15 horas com destino para Los Testigos, um grupo de ilhas à 100 milhas de Trinidad. Passei pela Boca do Dragão e desliguei o motor. Ventos fracos do Sul! Por volta de 20:30 o vento mudou para o rumo normal Leste e aumentou. Estou bem longe da costa, umas 20 milhas, devido a problemas de pirataria na costa Venezuelana.
15 - 18 Novembro 2001
Cheguei às 08:15 em Los Testigos, um total de 111 milhas com média de 5 nós. Tive pouco vento, porém a correnteza a favor de até 2,5 nós ajudou muito. Los Testigos são 7 ilhas à 45 milhas da costa da Venezuela. A água é muita clara. Vamos ver se tem peixe e lagosta. As ilhas Testigo Grande, Pequeno e Iguana são habitadas com algumas casas de pescador e um posto da guarda costeira; não tem comércio. Mergulhei, muito coral e peixes coloridos, porém nada de lagosta ou peixe para comer. Fui para o posto da guarda costeira para informar minha presença. Fui muito bem recebido e o oficial informou que o Brasil ganhou da Venezuela 3-0! Entendi que o Brasil estava classificado para a copa. Falando com alguns pescadores falaram que tem lagosta mas que é proibido usar arpão para quem não mora na ilha! O pessoal é muito simpático. Consertei o piloto automático Autohelm que estava com um fio quebrado no motor. Testei o watermaker e está funcionando perfeitamente, faz 5 litros por hora e gasta 6 Ah. No Domingo os pescadores me chamaram para ir junto com eles pescar no barco deles (caça submarino). Parece que agora junto com eles posso usar a arma. Rodamos a maior ilha e paramos em muitos lugares para caçar. Não tem peixe bom, só muito budião. Eles matam tudo que vem na frente, qualquer tamanho. Pensei que era para o consumo próprio, mas no final do dia paramos num barco maior e tudo é vendido. Falaram que o barco quando cheio (4000 kg) vai para Martinique para vender os peixes. Achei estranho, estes peixes não são bons. No Brasil o budião não tem valor comercial. Vi algumas lagostas tão pequenas que nem peguei. Foi um dia interessante e dei um litro de Rum para o pessoal..
19 Novembro 2001
Zarpei às 02:30 com destino a Isla Margarita. São 50 milhas e devo chegar depois de meio dia. De novo ventos fracos SE nas alhetas e estamos fazendo 5 nós. O dia é lindo, sol, vento e mar calmo. O leme de vento Windpilot está funcionando muito bem. Tive um contato no rádio SSB na freqüência 8104 com o barco Zarko, que estava conosco em Janeiro em Trinidad. Eles estão em San Blas no Panamá. Também com o barco Holandês Xenia que está em Curaçao. Cheguei em Porlamar às 14:30 com ventos muitos fracos. Ancorei em 4 metros. Na Venezuela a burocracia para dar entrada é tão grande e complicado que é necessário usar um despachante. Ruud e Ineke do barco Xenia já havia informado todas as dicas via e-mail e procurei o Juan que faz tudo por us$ 50,00 incluindo todas as taxas.
20 - 30 Novembro 2001
Isla Margarita é uma ilha turística, porém esta em crise com hotéis fechados e construções paradas. Encontrei de novo o barco sul-áfricano Capensis com Rick e Mary a bordo. Este barco estava conosco no ano passado em Camamu na Bahia . Sabendo que estou sozinho me convidarem para o jantar (um homem só não deve comer bem a bordo !). Chegou a Vida Viva com Francisco , Eduardo em Howlie. Ficarem 2 dias e já saíram para Tortugas. Vamos nos encontrar de novo em Cayo Largo na Cuba. Decidi não ir mais para o continente de Venezuela por falta de tempo. São 1000 milhas de Curação até Cayo Largo e quero chegar antes do Natal. Vou daqui para as ilhas Venezuelanas de Tortugas, Los Roques e Aves , depois para Curação donde eu devo zarpar no dia 12 para Cuba. Abasteci o barco com diesel, gasolina e água. A gasolina e o diesel deve ser o mais barato do mundo. Custa us$ 0,10 o litro ! Água mineral é mais cara. Também comprei muita comida, já que em Cuba falta tudo. Fiz o clearance para Curação no dia 30 para zarpar no dia 1 de Dezembro.
1 - 3 Dezembro 2001
Sai as 1030 para Isla Coche onde tem uma praia bonita. Cheguei as 1400 horas com vento na popa.. No dia seguinte rumo para Isla Tortugas distante 85 millhas. Velas em asa de pombo, porém o vento parou as 1500 horas até as 1800 horas. Por volta de 2000 o vento aumentou bastante e tirei a genoa. De noite chuva e cheguei no dia seguinte as 0630 e ancorei em 3 metros no Cayo Herradura. No cayo tem algumas barracas de pescadores. Comprei uma lagosta grande em troca de uma garrafa de rum e 3 camisas velhas. Preparei a lagosta a alho óleo com molho de tomate e espaguete. Deu comida para 2 dias. Todo dia as 0800 tem um rede de comunicação em 8104 KHz SSB e fiz contato com o barco Upside Down com Roberto, Claudia e Jorginho a bordo. Eles estão em Aves Oeste e vamos nos encontrar em alguns dias.
4 - 6 Dezembro 2001
Parti as 1145 para Los Roques, uma ilha com um parque marinho, distante 110 milhas. As 1345 ouvi um estalo e o suporte para guiar os cabo do leme de vento quebrou em um lado. É de inox e estourou na solda. Mandei fazer este suporte em Angra antes de sair. Amarei tudo com cabos. O vento continua bom nas alhetas e o barco esta fazendo uma média de quase 6 nós. Cheguei o dia seguinte as 0745 e ancorei no Cayo de Água em 2,5 metros. Los Roques são dezenas de ilhas espelhados por 30 milhas de Leste a Oeste e 15 milhas de Norte ao sul. Tudo muito raso e perigoso. Mais tarde chegou a guarda nacional para pedir que eu dou entrada e pagar as taxas do parque. Falei que só parei para consertar o leme de vento e que já vou embora. Depois me mudou para um lugar mais afastado. Espero que o pessoal me deixe em paz.
Sai no dia seguinte as 0700 horas rumo a Isla Aves Barlavento distante 32 milhas. La fora uma marola (swell) incomodo com este vento na popa. É difícil manter o rumo, mas cheguei as 1330. Aves Barlavento (Leste) e Sotavento (Oeste) são duas ilhas em forma de ferradura com a abertura no Oeste e portanto abrigada das ondas. A ferradura e quase todo de coral e submerso um pouco abaixo o nível do mar e portanto muito perigoso para a navegação . Mergulhei pelo recife e peguei uma garoupa que virou um belo jantar.
7 - 9 Dezembro 2001
Sai as 0900 rumo para Aves Oeste distante 17 milhas. De novo a marola de NE. A primeira coisa que a gente avista da ilha é um navio grande naufragado no recife ! Ancorei as 1230 ao lado do barco Upside Down. A tarde mergulhei junto com Roberto. No dia seguinte chegou a guarda costeira (nem sábia que tinha este pessoal nesta ilha tão pequena) para verificar os documentos e inspecionar o barco. Olharam tudo e dei uma garrafa de rum. Estou bem vindo !
Parti as 1800 horas rumo Curação à 80 milhas. Vento de 20 nós na popa e estou com asa de pombo. Fora da ilha a marola é pior com altura de 2 metros. O barco é jogado de um lado para o outro. Tirei a genoa porque estamos fazendo 8 á 9 nós e só quero chegar durante o dia. Sem genoa a velocidade cai para 6 à 7 nós. Meio noite e estamos ao sul da ilha Bonaire. Mudei o rumo para ficar atras a ilha e me livrar da marola. O vento é mais fraco e faltam 37 milhas. As 0400 já afastada da ilha a marola voltou. Não é uma viagem agradável. Cheguei em Spaanse Water, uma baia bem abrigada em Curação as 0800 horas e joguei o ferro ao lado do barco Vida Viva. . .
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10 - 14 Dezembro 2001
Fiquei mais tempo em Curação do que esperado. Foi difícil achar alguém para soldar a peça quebrado em aço inox . Também fiz novo exame no meu olho esquerdo. Está tudo bem.
15 - 22 de Dezembro 2001
Zarpei as 0900 horas rumo ao Cayo Largo na Cuba distante quase 1000 milhas. O Vida Viva vai sair a tarde.
A viagem poder ser divida em 3 partes:
Nos primeiros 3 dias um vento bom entre Leste e Nordeste de uns 15 nós. Neste dias a média diária era de mais de 150 milhas. No segundo dia a Vida Viva de 80 pés já ultrapassou o Triton e tiramos fotos um de outro no mar. Este barco ando 2 vezes mais rápido de que o Triton.
Nos dias 4 e 5 vento fraco e até parando Um dia fiz somente 86 milhas.
No dia 6 e 7 vento forte de 25 nós com rajadas de até 40. O barco aderna muito, mar grosso e muito água no convés.
Infelizmente de novo entrou uma onda pela gaiuta e até com doghouse levantado e a gaiuta fechada entre água. Também a quantidade de água que passa pela convés é impressionante. A proa parece uma piscina. O GPS principal pifou (achou que é a antena ou o cabo). Este vento todo é por causa de uma frente fria no Cuba. Um anel de aço inox na retranca onde e afixado o burro quebrou e a genoa rasgou na parte de cima (uns 30 cm).. Chegando perto de Cayo Largo entrei em contato com a Vida Viva que já chegou. Por volta de 1700 horas quero ligar o motor e nada. Não vire. Verifiquei o nível de óleo e de novo temos água no cárter do motor. Todas as medidas tomadas para evitar insto não adiantarem nada . Sempre quando o barco aderna para bombordo com mar grosso nas alhetas entre água, como na outro vez quando chegamos em Tobago. Só que deste vez o mar era pior ainda. Creio que única solução é colocar uma válvula na exaustão. Ia anoitar ancorado fora, porem Francisco da Vida Viva quer me rebocar por dentro da marina.. Chegamos as 2000 horas. Recebi o pessoal de alfândega, imigração , saúde e capitania dos portos para fazer a entrada em Cuba. O pessoal é muito educado e simpático. O pessoal de saúde vai voltar amanha para verificar o que tenho de comida abordo.
23 Dezembro 2001
Tenho carne enlatada abordo com origem de Brasil e Holanda e conforme o pessoal de saúde temos que lacrar tudo porque estes países tem problemas de doenças em animais que não tem no Cuba. O pessoal pedi mil desculpes mas achei certo. Colocamos tudo dentro um saco grande e lacramos. Somente posso abrir quando saio de Cuba para outro pais.
Depois arrumei o motor, tirar água e lubrificante, colocar lubrificante com óleo diesel para lavar o motor, tirar tudo de novo e colocar lubrificante. Depois deixei o motor ligado durante uns 2 horas. Como o motor não ligou com a água dentro e portanto a água somente ficou no fundo do cárter , creio que não vamos ter grandes problemas.
O problema do GPS é um mau contato numa emenda no cabo. Recoloquei os conectores e isolei melhor contra umidade .
24 - 31 Dezembro 2001
Limpeza do barco, tirar todo sal por fora e dentro. A tarde caça submarina com a Vida Viva. Pegamos muitas garoupas.
Passamos o Natal abordo da Vida Viva e depois assistimos a um show no hotel.. Howlie que embarcou na Vida Viva em Trinidad saiu para Miami para entregar um barco nas Bahamas.
Cayo Largo é uma ilha pequena e rasa com comprimento de 18 km. A furacão Michelle passou por a ilhas alguns meses atras e tem muitas arvores derrubadas e hotéis e casas danificadas. Somente um hotel está funcionando neste momento. Parte da marina também foi destruída. A ilhas tem bons lugares para mergulhar e praias extensas e quase desertas. O mar por volta da ilha é raso com profundidades de 2 á 6 metros, porém a uma milha da ilha a profundidade já é de mais de 2000 metros.
Fiquei alguns dias na marina e depois ancorei em Punta Sirena, distante meia milha da marina. Chegaram mais alguns barcos, inclusivo 2 barcos Holandeses. No 31 de madrugada um tempestade com vento e chuva forte e muito relâmpago. De repente a ancora soltou e tive que ligar rapidamente o motor, recolher a ancora e depois ancorar de novo. O fundeio aqui não é muito bom, areia fofa e muito capim (turtle grass). A noite festa do fim de ano junto com os empregados da marina.